Opinião: O preço da felicidade de fachada

 *Kempes Macedo

Não é de hoje que temos conhecimento do quanto as mídias moldam o comportamento de populações inteiras através da manipulação de valores e sugestões de consumo, no entanto, o que nos deparamos nos tempos atuais é algo ainda mais sério, trata-se de uma ditadura velada de padrões inatingíveis de felicidade que têm adoecido, inclusive, o último campo das relações humanas que deveria ser inalienável: a relação consigo mesmo.

Já foi o tempo que o padrão materialista de felicidade exigia o sucesso profissional como status de “realização”, agora é necessário cumprir um checklist inesgotável de obrigações que não comumente se encerra no adoecimento silencioso. Não é por acaso que, hoje, temas como ansiedade, surtos emocionais, crises de pânico, depressão, burnout entre outros sinais de esgotamento psíquico têm se tornado assunto prioritário na saúde pública.

A primeira reflexão que precisamos fazer é: o que temos chamado de felicidade? 

Enquanto a felicidade for status, estaremos diante de qualquer coisa, menos felicidade. As vitrines são diversas, dos personagens consentidos dentro da própria casa ao impostor das redes sociais, enquanto tivermos a necessidade de parecer ser para alguém, seja o chefe, a família, os amigos ou os seguidores das redes sociais, o vazio de buscar a felicidade na performance cobrará os dividendos.

No meu livro A Ilusão, O Surto e A Verdade: a história do meu Despertar conto como esta conta chegou. Desde muito criança o único pedido que emitia em oração e para as estrelas era que fosse feliz, acontece que quando deturpamos a felicidade qualquer piscina parece oceano. Felicidade não é medida por conquistas, não é algo que precisamos receber de ninguém, não é sequer nenhuma ideia que fazemos sobre nós mesmos, isso tudo é simplesmente ego, ausências não curadas, distorção de valores, desconexão! Pois, quem busca felicidade na performance terá sempre um novo nível a ser alcançado; quem busca a felicidade na aprovação vai reprovar todos os dias; quem busca a felicidade no prazer reduziu a beleza do existir à satisfação da matéria.

A felicidade verdadeira precisa de silêncio, reflexão e movimento. Silêncio para escutar sua própria voz, todo momento nossa atenção é bombardeada por demandas e facilmente podemos ser capturados por elas. Reflexão para reconhecer onde depositamos nossa felicidade e perguntar se isso faz mesmo sentido na vida; e movimento para conscientemente iniciar o resgate. É um processo fácil? É óbvio que não, pois a felicidade de um ser humano é um estado de consciência inabalável dentro de si, em elevar-se, tornar-se justo, tornar-se verdadeiro, tornar-se amor.

Felicidade não tem fórmula! Contudo, o adoecimento da população no mundo inteiro é a demonstração mais viva de que escapar através do consumo e dos vícios ou fingir ser quem não se é não é o caminho. A alienação nunca foi a resposta, a doença tem sido o resultado!

A grande questão é: até quando somos capazes de suportar?

Kempes Macedo é pedagogo, Mestre em Educação no campo dos Direitos Humanos e Políticas Públicas e escritor do livro O Surto e a Verdade: a história do meu despertar”

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