Bares apostam na exibição de filmes para criar experiências únicas

 

Sessões ajudam estabelecimentos a ampliar a programação cultural, atrair público e integrar entretenimento ao consumo 

 

Bares apostam na exibição de filmes para diversificar a programação - Imagem gerada por IA 

 

A programação de bares e restaurantes ganhou novas possibilidades nos últimos anos, com estabelecimentos incorporando atividades culturais à experiência oferecida aos clientes. Entre as iniciativas está a exibição de filmes, que aparece tanto em sessões semanais, quanto como parte da própria identidade dos negócios. 

Em Belo Horizonte/MG, o Quinteiro transformou parte do espaço em um cinema ao ar livre, com sessões semanais e entrada gratuita. Em São Paulo/SP, o Soberano Rua do Triunfo combina a operação do bar com um espaço dedicado à memória e à história do cinema. 

As duas iniciativas mostram como bares e restaurantes podem ampliar sua atuação para além da oferta de comida e bebida. Ao criar uma programação própria, os estabelecimentos passam a disputar também o tempo de lazer dos consumidores e encontram novas formas de gerar fluxo. 

 

Sessões de cinema ajudam a movimentar o Quinteiro 

Em Belo Horizonte/MG, a iniciativa surgiu a partir da estrutura disponível no próprio estabelecimento. Com 360 metros quadrados e capacidade para aproximadamente 250 pessoas, o Quinteiro buscava alternativas para aproveitar melhor o espaço também em dias de menor movimento. 

A ideia começou com sessões de filmes esporádicas, mas depois dos primeiros testes, passou a fazer parte da programação fixa da casa. “Uma vez a gente comentou: ‘Nossa, ter aqui um cinema ia ser muito legal.’ E aí a gente foi e começou a testar nas quartas-feiras", conta André Calixto, sócio proprietário do Quinteiro. 

A programação ganhou força durante o período do Oscar, quando o estabelecimento organizou uma maratona relacionada à premiação. A experiência contribuiu para consolidar a proposta de utilizar o espaço também para exibição de filmes. “A gente percebeu que tinha virado, de certa forma, uma casa de assistir coisas. E a gente entendeu que era uma proposta diferente de um cinema. Normalmente, no cinema o pessoal não conversa durante o filme, mas aqui você consegue beber, fumar, tem uma liberdade maior do que você teria em um cinema convencional”, conta André. 

Atualmente, as sessões ocorrem todas as quartas-feiras e recebem entre 60 e 70 pessoas. A entrada é gratuita e as reservas são feitas pelo site, para controlar a capacidade do espaço. 

A escolha dos filmes também mudou a partir da resposta dos frequentadores. Segundo Calixto, os clássicos nem sempre eram suficientes para atrair pessoas para as sessões. A casa, então, passou a priorizar títulos que estão em evidência, que aparecem nas redes sociais ou chegaram recentemente às plataformas de streaming.  “A gente entendeu que os filmes que estão sendo comentados nas redes, filmes brasileiros que estão no cinema, que já saíram para o streaming e estão concorrendo ao Oscar, funcionam melhor. A gente sempre trabalha com o que está mais comentado no momento.” 

A programação ainda abre espaço para aproximar o cinema da gastronomia. Em algumas ocasiões, o estabelecimento cria itens inspirados nos filmes exibidos. Para uma série escolhida pelos clientes, por exemplo, foi desenvolvido um drink temático. Na sessão de Matilda, o público encontrou um bolo inspirado na produção. 

A estratégia, porém, não significa transformar o cardápio permanentemente de acordo com os filmes. A ideia é aproveitar determinados títulos para criar ações pontuais e ampliar a experiência da sessão. “Eu acho que filme e gastronomia estão dentro de uma mesma esfera de lazer e conforto. Comer bem e assistir a um filme legal são coisas que caminham juntas. Quando você consegue unir as duas coisas, é um casamento que funciona demais”, explica André. 

 

Em São Paulo, cinema faz parte da proposta do estabelecimento 

No Soberano Rua do Triunfo, em São Paulo, a relação com o cinema é ainda mais direta. O estabelecimento foi reaberto em 2024 com uma proposta que reúne bar, memória e cultura cinematográfica. 

O proprietário, Marcelo Colaiácovo, define o espaço como “bar e museu de cinema”. As sessões costumam ocorrer semanalmente e incluem filmes exibidos em formatos como 35 milímetros, 16 milímetros e Super-8, além de produções digitais. 

A ligação de Colaiácovo com o cinema antecede a criação do estabelecimento. Ele teve contato com a chamada Boca do Cinema e trabalhou como assistente de José Mojica Marins, conhecido como Zé do Caixão. 

O próprio endereço também carrega uma relação histórica com a produção cinematográfica paulistana. A proposta de criar um espaço dedicado a essa memória surgiu antes da reabertura do estabelecimento. “Era uma ideia antiga, de fazer uma espécie de museu da Boca do Cinema, o cinema feito nessa região a partir dos anos 1950”. 

A programação prioriza produções brasileiras, principalmente obras relacionadas ao cinema paulista e à Boca do Cinema. Depois, entram filmes independentes de outros países. “Predominantemente, a ideia é sempre levantar a bola do cinema feito aqui, o cinema da Boca, o cinema paulista, o brasileiro, depois o cinema independente mundial. Essa é a ordem de importância”, conta Colaiácovo. 

As sessões são gratuitas e têm capacidade para aproximadamente 70 pessoas sentadas. O público inclui cinéfilos, estudantes, profissionais do cinema, artistas e moradores da região. Além de atrair pessoas para as exibições, a programação contribui para aproximar diferentes grupos que frequentam o espaço.  

Um público que chega para assistir a um filme pode acabar tendo contato com pessoas ligadas a outras atividades culturais realizadas no estabelecimento. “Vai misturando. Tem gente da música, das artes plásticas, da cultura em geral. Uma ponte muito interessante acontece quando um ator veterano que trabalhou com os cineastas da Boca conhece atores jovens de agora. Eu apresento um ao outro”,  

 

Cultura entra na estratégia para atrair público 

A criação de uma programação cinematográfica também traz desafios para estabelecimentos que precisam conciliar a experiência cultural com a operação de um bar e restaurante. 

No Quinteiro, a informalidade é parte da proposta. Diferentemente de uma sala convencional, o público pode consumir, conversar e circular durante as sessões. Essa característica, entretanto, pode gerar expectativas diferentes entre os frequentadores. “Tem gente que vem achando que é um cinema normal, cadeira confortável, silêncio total. Tem gente que já entende que é um bar, que vai ter barulho, um garçom passando na frente. Já aconteceu de alguém chegar, não gostar e ir embora”, conta André. 

No Soberano, a dinâmica também combina a exibição dos filmes com o funcionamento do bar. O público pode comer, beber e circular durante a programação. 

Dessa forma, as sessões não substituem a atividade principal dos estabelecimentos, mas passam a integrar a estratégia para gerar movimento e criar razões para os clientes visitarem os espaços. 

Nesse modelo, a combinação entre cinema, gastronomia e convivência cria uma alternativa de lazer que pode aproximar novos consumidores e fortalecer a identidade dos negócios. 

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